
Apresentação O que é violência sexista? Por que acontece? Tipos de violência sexista A realidade da violência sexista no Brasil Como essa realidade se mantém Como se combate a violência no Brasil O uso desta cartilha Fontes consultadas Créditos
COMO SE MANTÉM essa realidade?
Muitos fatores contribuem para manter a violência contra as mulheres:
a impunidade dos agressores, o silêncio das mulheres agredidas,
as idéias sobre a inferioridade das mulheres, a transformação
das vítimas em culpadas – sempre dizem que foi a mulher que
provocou e mereceu.
1-
O silêncio das mulheres
Durante muito tempo, a violência foi considerada um problema do
mundo privado, da família, das relações afetivas.
Há quase 30 anos, o movimento de mulheres no Brasil tem trazido essa questão para o espaço público, como um tema político, que deve ser tratado pelas políticas públicas. Foi a partir dessa ação do movimento que fi cou conhecida a frase “o silêncio é cúmplice da violência”.
Hoje, já cresceu muito o número de denúncias, mas sabemos que ainda é difícil denunciar. Diante da violência, os sentimentos das mulheres são de vergonha, humilhação, e muitas vezes, medo.
Por isso, é muito importante encorajar as mulheres a denunciar e buscar apoio o mais cedo possível. Esse apoio pode ser buscado no serviço de saúde, no sindicato, em um grupo de mulheres ou em amigas próximas.
Denunciar as situações de violência pelas quais
as mulheres passam é fundamental para se conhecer essa realidade
e garantir o fi m da impunidade dos agressores. Não apenas procurar
as delegacias, mas também tornar públicaa situação
de violência é a maneira mais
direta de reagir. Deixar o tempo passar não acaba nem diminui a
violência, ao contrário.
Quando o homem dá o primeiro grito, faz a primeira ameaça, caso a mulher não reaja, ele aumenta seu controle sobre ela, aumentando a violência.
Outra dificuldade que as mulheres enfrentam nesses momentos, e que as leva a não denunciar, é a dúvida entre o que sentem e a violência que sofrem. Algumas sentem pena, outras pensam sentir amor ou afeto pelo agressor, e não gostam da situação de vê-lo condenado.
Cabe afirmar que a denúncia é um instrumento importante,
mas não é a única possibilidade de sair da situação
de violência. Atitudes fi rmes dentro da relação,
assim como o respaldo de um grupo de mulheres, são fundamentais
para que as mulheres se fortaleçam e sejam
capazes de dominar sua própria vida, dando um basta à violência.
Mas isso, nós veremos mais adiante.
Além disso, para evitar as situações de abuso sexual, é preciso prestar sempre atenção na criança, reparar em seus medos, perceber as mudanças de comportamento, conversar com a criança e a adolescente sobre seu corpo e sexualidade. Comentar que somente pessoas de sua idade e com seu consentimento podem lhe tocar, assim, a menina vai criando confi ança para conversar.

2-
Impunidade
Outro dos fatores que fazem com que os homens sejam violentos é
sensação de impunidade. São muitos os casos de homens
que assassinaram suas companheiras ou ex-companheiras e que nem sequer
foram julgados, e quando são julgados, rapidamente podem cumprir
a pena em liberdade, ou têm pena diminuída. Ainda hoje é
usado o
argumento de que mataram em legítima defesa da honra, ou de que
agiram sob “forte emoção”.
Essa tem sido uma forte luta dos movimentos de mulheres. Primeiro, dizendo
que quem ama não mata, e lutando para que os crimes contra as mulheres
sejam considerados crimes
contra a pessoa e não contra os costumes.
Serem considerados crimes contra os costumes sempre serviu de base para a impunidade, porque é como se o problema não fosse um crime contra a mulher, uma pessoa, mas sim, o desrespeito aos hábitos e à boa conduta.
Outro fator que mantém a impunidade é descaso das autoridades.
Os peritos cometem erros grosseiros, a polícia ri das vítimas,
desconsidera o testemunho de familiares e se deixa engambelar pelo agressor.
O mau atendimento e o desrespeito às vítimas também
são
cúmplices da violência. A atitude nada profissional da polícia
explica porque cidadãs vítimas desses crimes não
procuram as delegacias.
Casos de violência doméstica, como espancamento, são julgados pela lei 9.099/95, que trata de crimes menores, chamados pequenas causas. Isso faz com que a punição, em geral, seja uma cesta básica ou prestação de algum serviço à comunidade.
Além disso, os agressores das mulheres aguardam seu julgamento em liberdade, e também recebem penas reduzidas. Juízes e advogados entrevistados para um relatório do America’s Watch apontam que nove em cada dez réus condenados pelo assassinato de mulheres aguardam a decisão judicial sem passar uma única noite na cadeia.
A Justiça brasileira, portanto, acaba contribuindo para a não-criminalização
dos casos de violência contra a mulher, e também é
reprodutora de desigualdades. Entretanto, o combate contínuo à
violência sexista passa por conhecer essa realidade Brasil afora,
em áreas urbanas e rurais – no bairro, na comunidade, em
casa, no trabalho, na escola – além de
saber se e como as mulheres reagem.

Como o número de mulheres que registra sua denúncia ainda é muito pequeno, fica prejudicada uma análise mais completa sobre a questão da violência sexista.
3
- De vítima a culpada
Uma outra questão que contribui para manter e reforçar a violência
é que, geralmente, as mulheres são transformadas de vítimas
em culpadas. Desde elas terem que provar que foram vítimas, como
nos casos de assédio, seja no local de trabalho, na escola, no sindicato,
partido; até nos casos de estupro e espancamento, em que quase sempre
se pergunta a elas o que fizeram para que tal fato acontecesse. O
mesmo ocorre nos assassinatos. Costumase enumerar supostos erros das mulheres
como forma de justificar o ato do homem, e como conseqüência,
ela acaba sendo considerada a culpada.
Nas situações de violência sexual, para culpar as mulheres, argumentam que ela não se comportou bem, que expôs o corpo.

Nos casos de estupro, por exemplo, o discurso dos agentes do Direito reforça a idéia de que é a vítima quem deve provar que não é culpada. As poucas mulheres que denunciam essas situações são obrigadas a responder que roupa estavam usando, por onde estavam passando, pra fazer o quê... Ou seja, esses agentes continuam reproduzindo estereótipos e preconceitos sociais, inclusive de gênero.
Além disso, os homens são violentos na medida em que percebem que as mulheres estão com o amor próprio baixo, e não se sentem capazes de reagir. É muito comum que, quando um homem bate em uma mulher, ele já vinha cometendo outras formas de violência antes, tais como humilhação, xingamentos, ameaças. Isso faz justamente com que ela vá se sentindo inferior e sem forças.
Mas uma atitude que pode parecer um consentimento para a situação
de violência, na verdade, revela uma relação de dependência,
onde há vários mecanismos de coerção. A dependência,
os sentimentos de desvalorização e de culpa acabam fazendo
com que a mulher acredite que não há saída. Numa
relação afetiva, esses sentimentos se misturam com a esperança
de que o homem vai mudar, ou mesmo com a idéia, bastante comum,
de que ela é responsável por salvá-lo.
Daí vem a idéia de que é normal o homem ser violento, e de que cabe à mulher evitar, o que mantém as mulheres com permanente medo, humilhação e submissão. A responsabilização das mulheres (que são vítimas da situação, não culpadas por ela) faz com que a sociedade conviva com a violência e a aceite. Como se a violência masculina fosse natural, e portanto, incontrolável.
Esse pensamento joga toda a responsabilidade sobre as mulheres, elas é que devem se comportar, afi nal, já sabem como são os homens; ou precisam saber escolher melhor, como se houvesse opção frente a uma realidade tão machista. Não é uma questão de escolha. Todas as mulheres estão sujeitas a enfrentar algum tipo de violência sexista.

NADA JUSTIFICA A VIOLÊNCIA
Muitas são as desculpas para tentar justificar os atos de violência: bebida, desemprego, perder a cabeça, não regular bem. Tratam-se de tentativas de aliviar a culpa dos homens que praticam violência.
Acreditar que esses elementos podem ser a causa da violência leva as mulheres a manter uma expectativa equivocada de que quando ele parar de beber, ou quando tiverem um bebê, ou quando ele estiver empregado a situação melhore, e assim elas não enfrentam a violência.
Quando um homem está bêbado e bate na mulher, não podemos afirmar que ele fez isso simplesmente por estar fora de si. Porque, se quem apanha é a mulher, e não o vizinho, o amigo, o dono do bar, isso significa que ele está, mais uma vez, impondo seu poder sobre ela, e não quer dizer que ele não faria isso sóbrio.
No caso de um homem desempregado, ele encontra-se numa situação de fragilidade, de fracasso, e seu único reduto de poder é a mulher, sendo sobre ela que ele exerce a violência.
Os homens tendem a justificar a violência como algo externo a eles, e a sociedade aceita. Mas eles não são violentos por estarem bêbados ou desempregados, mas sim, pela ideologia machista: a sociedade lhes dá poder em relação às mulheres, e isso determina as relações de posse, as ações violentas – eles querem demonstrar, pela força física, quem manda nelas.