Artigo publicado originalmente na Coluna Sempreviva do Brasil de Fato
Em 2024, o Rio Grande do Sul viveu a maior crise hidrológica já registrada em sua história, uma das catástrofes socioambientais mais marcantes do Brasil recente. Chuvas com intensidade, duração e abrangência sem precedentes resultaram em inundações, deslizamentos e enxurradas com impactos devastadores do ponto de vista econômico, social e ambiental. As catástrofes e crimes socioambientais, eventos extremos ligados à crise climática, acontecem com cada vez mais frequência em todo o Brasil e nos lembram da urgência de colocar no centro do debate o questionamento aos modelos de desenvolvimento baseados na exploração das pessoas, da natureza e do trabalho das mulheres. Esses eventos escancaram o que chamamos, a partir da economia feminista, dw conflito capital-vida.
Neste cenário, a atuação comprometida dos movimentos sociais foi fundamental. Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Amigas da Terra Brasil, Movimento de Atingidos e Atingidas por Barragens (MAB), Movimentos dos Trabalhadores e Trabalhadoras Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Movimento Negro Unificado (MNU), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), entre outros tantos coletivos de economia solidária, sindicatos e organizações locais formam uma densa rede de articulação da sociedade civil organizada que garantiu o resgate, acolhimento, infra-estrutura, alimentação e suporte de famílias atingidas pelas enchentes e daquelas que, mesmo não tendo sido tocadas diretamente pelas águas, tiveram o cotidiano interpelado por ela.
Essas organizações tiveram o papel fundamental de distribuir marmitas, roupas, colchões, cobertores, móveis para famílias que perderam tudo. Muitas das pessoas que recebiam doações passaram a se envolver na própria organização e distribuição, vinculando-se aos movimentos, revelando as relações de reciprocidade. São essas relações que sustentam a mobilização comunitária e que a economia feminista reconhece como parte constitutiva da economia do ponto de vista substantivo, aquela que sustenta a vida, mas que os indicadores oficiais se recusam a contabilizar. Hoje, dois anos depois, essa rede segue o trabalho de cobrar e denunciar a violação de direitos, com a reivindicação da garantia de condições para reconstrução da vida nos territórios.
Diversas ações marcam o mês de maio em memória e registro das enchentes. Exposições de fotos, debates, mesas-redondas recuperam o período das enchentes e colocam no centro do debate sobre a reconstrução as pessoas atingidas e suas organizações comunitárias. Além das ações nos territórios, os movimentos sociais se articulam em uma frente popular em Porto Alegre, mobilizados para impedir processos de avanço da especulação imobiliária e de privatização de serviços públicos na capital. Talvez a mais emblemática dessas lutas seja a mobilização popular contra a privatização do Departamento Municipal de Água e Esgoto, o órgão responsável pelo sistema de proteção de cheias da capital que, por falta de manutenção adequada, teve um desempenho insatisfatório na contenção das águas e na drenagem delas, contribuindo para o agravamento dos impactos sofridos em 2024.
Cozinhas comunitárias: a nossa chama é o fogo da revolução

Depois das enchentes, a rede de cozinhas comunitárias do Rio Grande do Sul cresceu em tamanho, solidez e capacidade de articulação política. Hoje, são mais de 323 cozinhas comunitárias cadastradas no Conselho Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea). Além de refletir a capacidade de organização e mobilização popular, esse número também chama atenção para um impacto severo das enchentes e do processo de empobrecimento da população no período de reconstrução do estado: a necessidade urgente de garantir a segurança alimentar da população atingida. As cozinhas distribuem refeições a partir de alimentos destinados pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e de doações, e se sustentam com o trabalho de muitas mãos na organização, logística, preparo dos alimentos, manutenção dos espaços, lavar panelas, conversar com quem retira a marmita….
Uma dessas cozinhas é a Periferia Feminista, projeto animado pela Marcha Mundial das Mulheres do Rio Grande do Sul localizado no Morro da Cruz, zona leste de Porto Alegre. Este projeto teve início em 2021, começou como uma horta comunitária, cujo objetivo sempre foi a criação de um espaço de fortalecimento dos vínculos comunitários e de organização política no bairro, assentado na mobilização da MMM e de movimentos parceiros como a organização Amigas da Terra. Os primeiros encontros no espaço, ainda na pandemia de covid-19, tinham como fator mobilizador a falta d’água, problema recorrente no Morro da Cruz. Logo depois, o projeto se tornou um ponto importante de distribuição de cestas básicas. A horta era uma semente de organização das mulheres e ali elas foram germinando os esforços de elaboração de uma economia solidária popular, agroecológica, feminista. O primeiro projeto de cozinha era um espaço de apoio interno para o grupo, que permitia o preparo coletivo dos alimentos nos dias de mutirão na horta e assim, além de alimentar as mulheres e suas crianças, também provocava o debate sobre a necessidade urgente de coletivizar as tarefas de reprodução social.
No alto do Morro, o espaço da Periferia Feminista não foi atingido diretamente pelas inundações. Porém, com a enchente, o coletivo reposicionou o trabalho coletivo para o preparo e distribuição de refeições. O grupo de mulheres do Periferia Feminista aprendeu a cozinhar em grandes proporções e passou a preparar refeições para distribuir no bairro, pensando em casas que estavam abrigando famílias que haviam saído de suas casas. Juntas, elas foram driblando os desafios de gerir uma cozinha comunitária sem abastecimento de água ou energia elétrica, efeito das cheias na parte baixa da cidade. Nos meses que seguiram as águas, chegaram a distribuir mais de mil marmitas por dia. Com o tempo e com o retorno das famílias abrigadas às suas casas, esse coletivo de mulheres avaliou que a demanda por alimentos no Morro da Cruz continuava urgente e assim decidiu continuar com o preparo e distribuição de refeições.
Atualmente, esse grupo de 26 mulheres, a maioria moradoras do Morro da Cruz, distribui cerca de 300 refeições por dia, e também organiza no espaço a horta comunitária, um coletivo de costura e bordado, um brechó, uma padaria comunitária, além de atividades de educação popular com as crianças e mulheres. Ali, as mulheres distribuem toneladas de alimentos toda semana para moradores do bairro e nos dão uma verdadeira aula sobre a potência da organização feminista territorialmente enraizada e da importância das alianças entre movimentos sociais.
Organizadas, elas também ocupam um assento no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), recebem pesquisadoras/es de diferentes áreas, organizam atividades conjuntamente com outras parcerias e intercâmbios de experiências. Aquele espaço começou com uma horta e hoje abriga diversas atividades e projetos. É, como elas mesmas dizem, “um organismo vivo de cuidados”, formado por uma “cozinha-coração”, que abriga mais do que equipamentos de cozinha industrial e corte e costura: abriga um projeto político popular, solidário e feminista.
As mulheres do Periferia Feminista nos ensinam uma importante lição: nessas iniciativas comunitárias, preparar comida não é reforçar o lugar das mulheres na cozinha. É escancarar a nossa contribuição, muitas vezes invisível, para as tarefas de reprodução e sustentabilidade da vida. De forma coletiva, elas politizam isso, alimentando a comunidade também com projetos de uma vida melhor, com acesso às políticas públicas, com abastecimento de água e saneamento básico, com organização e participação popular nos planos de reconstrução e adaptação dos territórios.
*Beatriz Schwenck é socióloga, especialista em políticas públicas e justiça de gênero. Integrante da equipe técnica da SOF e militante da MMM


