De 15 de junho a 31 de julho de 2026, mais de 300 mulheres se inscreveram em uma nova edição do curso virtual de economia feminista da SOF Sempreviva Organização Feminista. O conteúdo se organizou em torno de duas articulações: a economia feminista e a luta antirracista e a economia feminista e a soberania tecnológica. A proposta era retomar princípios já trabalhados coletivamente, compreender que raça, gênero e classe são inseparáveis na experiência concreta das mulheres e disputar o debate sobre as tecnologias, questionando o capitalismo digital como novo campo de acumulação e apontando alternativas soberanas.
Realizado em ambiente próprio na plataforma Moodle, a formação foi principalmente assíncrona, envolvendo a leitura de textos, vídeos e fóruns de debate, cada uma no seu tempo. Ao fim das atividades, terminou com um encontro coletivo ao vivo, no dia 28 de julho, para compartilhar as sínteses construídas no percurso.
Quem esteve nos fóruns
O perfil das inscritas foi heterogêneo: de 16 a 70 anos e de todos os estados das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Houve ainda inscrições de Moçambique, Quebec, Austrália, França e Argentina.
Muitas inscritas são militantes da Marcha Mundial das Mulheres e de outros movimentos, organizações e entidades aliadas: Movimento Negro Unificado (MNU), sindicatos ligados à Central Única dos Trabalhadores (CUT), Partido dos Trabalhadores (PT), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (GT Mulheres-ANA), Associação de Mulheres da Economia Solidária de São Paulo (Amesol), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Amigas da Terra Brasil (ATBr) e grupos de pesquisa universitários, entre outros.
Conteúdos trabalhados
O primeiro módulo partiu do texto “Retomando o fio: princípios e conceitos da economia feminista”, elaborado pela equipe da SOF como síntese das formações anteriores e ponto de partida para a nova etapa. Na primeira tarefa, as participantes contaram de onde são, o que fazem e como se relacionam com a economia feminista.
O segundo módulo trabalhou a perspectiva antirracista construída na atuação política da SOF e da Marcha Mundial das Mulheres, tendo como uma referência central a atuação na 2ª Marcha das Mulheres Negras, ocorrida em novembro de 2025. O texto “O feminismo antirracista na economia”, produzido pela equipe da SOF, sustenta que o racismo não é uma camada de opressão aplicada sobre uma análise econômica já pronta: assim como o patriarcado, ele estrutura o modo de produção capitalista, e não apenas o acompanha. Completaram o módulo textos da Marcha Mundial das Mulheres e de Patricia Hill Collins.
A tarefa pedia que cada participante contasse uma experiência de alternativa econômica ou de construção de movimento que conhece, relatando como mulheres negras e indígenas estão envolvidas. As respostas se organizaram em três dimensões: experiências agroecológicas, de economia solidária e de cuidados e soberania alimentar urbana. Assim, foram mencionados quintais produtivos, Cadernetas Agroecológicas, produção artesanal e comercialização, espaços de formação política e de enfrentamento à violência, cozinhas solidárias, hortas urbanas, oficinas artísticas, bazares e bibliotecas populares, entre diversas outras iniciativas coletivas e populares.
O terceiro módulo trabalhou a articulação entre economia feminista e soberania tecnológica. Buscou, assim, refletir sobre como a tecnologia e o mundo digital participam de uma tensão inconciliável entre a lógica de acumulação do capital e a lógica da sustentabilidade da vida. Além dos materiais produzidos para o curso, também foram indicados documentos como o informe “Pistas feministas para construir soberania tecnológica a partir dos movimentos populares”, a publicação “Capitalismo digital, comunicação e construção de movimento” e artigos sobre inteligência artificial. Pâmela Laila, militante da MMM, explicou em vídeo sobre racismo algorítmico, ou seja, a automatização que privilegia conteúdos e imagens de pessoas brancas e associa pessoas negras a características negativas, reproduzindo a estrutura racista da sociedade na forma como se organiza a tecnologia.
Com todos esses conteúdos, o fórum convidou as participantes a refletir sobre a relação entre as tecnologias, o tempo das mulheres e a divisão sexual do trabalho. O acesso desigual foi outro eixo. Máquina de lavar, geladeira, liquidificador e airfryer reduzem o tempo de trabalho doméstico, mas não chegam a todas: mulheres negras, da classe trabalhadora e moradoras de territórios periféricos seguem com dupla ou tripla jornada e responsabilizadas sozinhas pelo trabalho de cuidados. “O verdadeiro ganho de tempo depende tanto do acesso às tecnologias quanto de uma divisão mais justa das tarefas de cuidado”, resumiu uma participante.
E apareceram as tecnologias construídas pelas próprias mulheres. Uma participante do semiárido baiano escreveu sobre as guardiãs de sementes, os manejos que mantêm a caatinga de pé e as tecnologias sociais conquistadas na luta: “Estas mulheres rurais nordestinas tiveram seu tempo de trabalho reduzido com as tecnologias sociais de captação de água de chuva, como as cisternas de consumo e de produção ao redor de suas casas, uma política pública que foi resultado de muita organização e luta dos e das camponesas”.
No encontro de encerramento, em 28 de julho, foram apresentados os conteúdos de cada módulo, a evolução em relação às edições anteriores e algumas das experiências trazidas nos fóruns. No debate, as participantes destacaram a diversidade regional das experiências reunidas e a intenção de multiplicar o conteúdo em cursos e oficinas presenciais nos seus territórios.


