“Mulheres Agricultoras e Quilombolas como Agentes Ambientais em Rede”: SOF realiza formação em educação ambiental com agricultoras do Vale do Ribeira e do Sudoeste Paulista
A SOF realiza em parceria com a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (SEMIL), o projeto “Mulheres Agricultoras e Quilombolas como Agentes Ambientais em Rede” envolvendo um processo de formação em educação ambiental voltada a mulheres agricultoras do Vale do Ribeira e do Sudoeste Paulista.
O projeto tem três objetivos principais. O primeiro foi reencontrar os grupos acompanhados pela SOF durante a política pública de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) para Mulheres, entre 2023 e 2025, e fortalecer a continuidade de suas ações . O segundo é promover reflexão e formação socioambiental sobre os problemas ambientais enfrentados nos territórios. O terceiro é fortalecer a articulação entre as mulheres e o reconhecimento de seu papel como educadoras ambientais.
A principal atividade foi a realização de oito oficinas territoriais, em diferentes municípios da região, com grupos de mulheres de cada território. Nelas, as participantes mapearam os problemas socioambientais locais e levantaram as práticas agroecológicas e as ações que seus coletivos e comunidades já desenvolvem para fortalecer os modos de vida tradicionais e a convivência com a natureza. O mapeamento e a construção de alternativas é educação ambiental enraizada nos territórios
Além das oficinas, o projeto promoveu um encontro regional no Sesc Registro, que reuniu mais de 100 mulheres de diferentes municípios. O encontro permitiu a troca entre os territórios e o reconhecimento mútuo das participantes como educadoras ambientais.
Outro eixo central foi a ciranda de crianças, presente em todas as oficinas e no encontro regional. A proposta foi dar visibilidade à forma como as crianças compreendem seus territórios, os problemas que enfrentam e as soluções que suas comunidades já praticam.
Oficinas territoriais, educação feminista popular e ambiental para fortalecer os territórios
A metodologia parte do princípio de que mulheres agricultoras e quilombolas são agentes de conhecimento ambiental: o que percebem no corpo, na roça, na água e na mata é dado legítimo e, quando escutado coletivamente, se converte em diagnóstico, denúncia e proposta. Todas as oficinas tiveram duração de quatro horas e reuniram de 15 a 20 mulheres em cada território.
Em todas as atividades, houve atenção especial às crianças. Ao final de cada oficina, elas eram convidadas a apresentar seus trabalhos e a compartilhar suas impressões sobre o território, a natureza, os animais e as culturas tradicionais que fazem parte de suas vidas.
Como metodologia geral, todas as oficinas começaram com um momento de apresentação e aproximação. A partir de uma lembrança da infância ou de uma planta significativa, as mulheres falavam seus nomes e suas intenções para o dia de trabalho. Em seguida, tomando como ponto de partida uma lembrança da infância relacionada à natureza e ao meio ambiente, as participantes compartilharam suas percepções sobre as mudanças no território. Relataram alterações no meio ambiente ao redor e dentro de suas comunidades, transformações nas culturas tradicionais e nas festas, e a redução do número de moradores. Também trouxeram ao coletivo suas preocupações com a proteção das águas, a conservação das plantas nativas e o desaparecimento de frutas que já não se encontram em seus territórios.
As oficinas territoriais seguem uma metodologia de educação ambiental não formal, organizada em dois momentos. No primeiro, uma roda de memórias convida cada mulher a lembrar como era o ambiente na infância (a água, a mata, o clima, os animais, a roça) e a comparar com o presente. A proposta é um espaço de escuta afetiva em que o conhecimento carregado na memória e na experiência de cada participante se transforma em análise coletiva. A partir dos relatos, as próprias mulheres identificam as transformações do território e suas causas, sem depender de dados externos.
No segundo momento, as participantes se dividem em grupos por bairro ou comunidade e desenham coletivamente o mapa de seus territórios. Elas reconhecem os espaços comuns, apontam os problemas ambientais de cada localidade e levantam as soluções que já praticam ou que consideram possíveis. A atividade termina em plenária, quando os grupos compartilham os mapeamentos. É nesse momento de síntese que os problemas locais aparecem como parte de um padrão regional e as soluções se somam como um repertório coletivo de resistência.
O Encontro Regional de Agricultoras em defesa dos territórios e da natureza
O Encontro Regional de Agricultoras em defesa dos territórios e da natureza aconteceu nos dias 10 e 11 de julho de 2026, no Sesc Registro, e reuniu 104 mulheres agricultoras, quilombolas, indígenas e artesãs do Vale do Ribeira e do Sudoeste Paulista, além de 37 crianças. A atividade foi construída em parceria com o setor de Educação Ambiental do Sesc Registro, que há anos trabalha com as agricultoras da região em defesa da agroecologia.
O primeiro dia começou com a visita a uma instalação com fotos, mapas e desenhos produzidos nas oficinas territoriais, seguida de apresentação das participantes, levantamento de expectativas e combinados de convivência. À tarde, duas oficinas simultâneas, em dois turnos, permitiram que todas participassem das duas: “O pulso das águas: um olhar sobre a ecologia e cosmologias dos rios”, conduzida pela bióloga quilombola Maíra da Silva, e “Mulheres em movimento: a organização para resistir e transformar”, construída com as mulheres de Registro. A noite terminou com show da cantautora regional Márcia Mah.
No segundo dia, a manhã teve a exibição do documentário Nas Beiras do Ribeira e uma roda de conversa com agentes de educação ambiental do Sesc Registro. À tarde, a plenária final reuniu grupos de discussão sobre água, sementes, terra e território e organização das mulheres. As conclusões foram reunidas em um “Poema-manifesto”, lido em voz alta como síntese coletiva do encontro. Houve ainda o lançamento da publicação Aqui brotam nossas ramas: aprendizados em agroecologia feminista no Vale do Ribeira.
Aprendizados e sínteses coletivas para fortalecimento da auto organização das agricultoras
A partir das vivências compartilhadas pelas mulheres, destacamos três aprendizados coletivos: O primeiro reflete sobre a organização coletiva das mulheres como forma de resistência. Na oficina “Mulheres em movimento”, as participantes contaram como seus grupos nasceram para resolver dilemas concretos: autonomia econômica, enfrentamento da violência, cuidado com a saúde mental e defesa dos territórios. Uma quilombola relembrou que seu coletivo surgiu em 2017, com cinco mulheres, como resposta a casos de suicídio na comunidade. Uma advogada resumiu o aprendizado que atravessou o encontro: é mais fácil calar uma mulher sozinha.
O segundo é sobre os saberes da relação entre as águas e o território. Na caminhada às margens do Rio Ribeira, as agricultoras identificaram plantas e conversaram sobre contaminações, como vazamentos de caminhões na BR-116 e de postos de combustível. Mostraram interesse especial pelas plantas fitorremediadoras, como o jerivá e a taboa, capazes de ajudar a recuperar águas contaminadas.
Como terceira reflexão destacou-se a construção coletiva com espaço para todas as idades. A monitoria infantil permitiu que as mães participassem plenamente da programação, enquanto as crianças viviam brincadeiras, desenhos e atividades sobre o território. No encerramento, as crianças apresentaram seus desenhos em um varal, e Izaldite, integrante da RAMA e a mulher mais velha presente, compartilhou seus aprendizados. A mais velha e os mais novos saudaram e encerraram juntos o encontro. O poema-manifesto terminou com um compromisso: “Esses encontros de mulheres não pode parar”.
Confira uma galeria de imagens do projeto:














