Por Helen Souza, Rebeca Viana e Natália Blanco* publicado originalmente no Brasil de Fato.

“Nada que está vivo, irá morrer” é a frase da Iyalorixá Adriana de Nanã que ecoa quando, em novembro deste ano, anuncia às agricultoras/es e colaboradores da horta do Projeto Cabaça que os canteiros seriam removidos do espaço atual, na zona leste da cidade de São Paulo (SP).

Onde o concreto compete com o solo fértil, as hortas urbanas lideradas por mulheres são mais que espaços de cultivo. São lar-terra, territórios de resistência, fonte de renda, autocuidado e pertencimento comunitário-ancestral, assim como é o modo de existir de muitas mulheres negras e periféricas que ressignificam sua caminhada, pé ante pé, de profunda fragilidade da permanência na capital paulista.

Esta, também, é a história da horta do Projeto Cabaça, um dos braços do Instituto de Estudos e Pesquisas Omó Nanã, organização sem fins lucrativos e composto em sua maioria por mulheres negras que compartilham o desejo de salvaguardar e defender as tradições de matriz africana e o enfrentamento ao racismo religioso, buscando publicizar, politizar, formalizar e desenvolver boas práticas sociais e inúmeras tecnologias ancestrais de cuidados e bem viver.

O Projeto Cabaça foi idealizado em 2019 por Iyá Adriana de Nanã – em colaboração estreita com outras lideranças religiosas de matriz africana (Pai Marcelinho de Logunedé, Mãe Nana de Iemanjá, Iyá Shirley de Ossain e Iyá Marisa de Oyá) buscando fazer da visão de atuação do Instituto Omó Nana ações palpáveis e concretas. Por meio de parceria costurada junto com o Instituto das Cidades,  campus zona leste da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), o Projeto Cabaça nasce como uma iniciativa de extensão universitária.

Entre 2020 e 2022, no âmbito da pandemia de coronavírus, o pilar de atuação foi a construção coletiva de metodologias que ampliassem o conceito de prosperidade e economia de terreiro pela ótica da matriz africana.

A problematização central foi a realidade de mulheres pretas que são, comumente, as responsáveis pela manutenção da cultura e do cuidado de toda a comunidade e, ao mesmo tempo, respondem dos efeitos das degradações ambientais ao aumento de custos econômicos das práticas religiosas.

Em 2023, os pensamentos e idéias semeadas nos diálogos e rodas de conversa germinaram a horta comunitária urbana do Projeto Cabaça, em terreno cedido pela UNIFESP com solo degradado e ocupado por monoculturas de pinus e eucalipto, além de antigos pólos industriais. Foi, então, possível construir um “laboratório vivo” de agricultura urbana que tem como pilares a ancestralidade e a religião de matriz africana, influenciando o respeito e o cuidado com a natureza e enfatizando a importância das folhas e alimentos sagrados – em suas múltiplas dimensões – e a preservação das memórias.

Nesses dois anos de plantio, os canteiros nutriram possibilidades de recuperação de saberes ancestrais de cuidado e suturas relacionadas às violências coloniais e suas consequências mútuas à Terra e seus habitantes não humanos, mais que humanos em especial seres humanos afrodescendentes em diáspora. Por meio dos encontros de saberes mediados pela horta, as agricultoras, a maioria mulheres negras ou afro-indígenas, não necessariamente de terreiro, encontraram espaço para a valorização de sua ancestralidade; ao mesmo tempo, as lideranças de terreiro tiveram acesso a um processo de resgate de saberes ancestrais de cuidado com a terra. Dessa forma, criaram-se espaços de escuta e acolhimento que apontam caminhos para o enfrentamento coletivo à violências e opressões; e geram fortalecimento da ação das agricultoras em seus territórios.

Espaços estes no qual as mulheres negras – historicamente responsáveis pelo cuidado da terra, pela preservação das sementes, pela transmissão de conhecimento aos mais jovens e pela alimentação nos aquilombamentos – sustentam práticas agroecológicas baseadas em conhecimentos ancestrais, na coletividade e na defesa dos territórios, mesmo diante do racismo ambiental.

O recorte racial evidencia que não há agroecologia possível sem justiça racial, pois são essas mulheres que enfrentam de forma mais direta os impactos da violência do modelo agroindustrial e do avanço das cidades, sendo o cuidar da terra, do corpo e da comunidade um processo indissociável da luta antirracista, antipatriarcal e pela transformação do sistema alimentar.

Neste contexto, as realidades das agricultoras rurais e urbanas se aproximam. A publicação  “Feminismo e Agroecologia: tecendo vidas sem violência” produzida pela SOF – Sempreviva Organização Feminista, sistematiza a experiência de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) agroecológica e feminista, com o objetivo de integrar o enfrentamento à violência contra as mulheres nas práticas e políticas de agroecologia. As experiências, mesmo que em contexto rural, se aproximam com as do Projeto Cabaça, reforçando que as transformações são possíveis quando mulheres se juntam no exercício das relações de cuidado com a natureza e suas comunidades. Laços são criados e fortalecidos com o compromisso coletivo de se criar relações mais justas e solidárias.

Mas, permanecer é preciso e, foi assim que na primeira semana de dezembro, diante da perspectiva real de desalojamento, agricultoras/es, parceiras/os e amigas/os da horta do Projeto Cabaça uniram suas forças para dar destino digno e cuidadoso às mudas de hortaliças, vegetais e demais habitantes dos canteiros. O clima foi de celebração tanto por tudo o que se vivenciou e colheu nesta terra e, também, pela possibilidade concreta de muito em breve inaugurar a horta em outro local. Mas esse clima de união e celebração não impede a reflexão sobre a fragilidade das hortas urbanas periféricas e da importância da construção de um olhar solidário para iniciativas que, sem dúvida, contribuem para a saúde global de uma cidade que teima ainda na narrativa da conquista e que acaba por sufocar os espaços de construção.

Sem garantias formais de uso, as hortas urbanas, muitas erguidas com trabalho voluntário, recursos próprios e mobilização local, vivem sob constante ameaça de remoção. A cada nova obra pública, alteração no zoneamento ou mudança de gestão, o medo de perder tudo o que foi plantado se torna parte da rotina de agricultoras e agricultores. Para muitas lideranças femininas, que já enfrentam desigualdades de gênero, raça e classe, o risco é ainda mais intenso: perder a horta significa perder autonomia, rede de apoio e, em muitos casos, a principal fonte de sustento simbólico e material. A insegurança na posse reflete um problema estrutural maior: quem tem direito à cidade? As hortas urbanas, assim como a horta do Projeto Cabaça, revelam que cultivar alimento é também cultivar pertencimento. E quando mulheres negras periféricas lideram esse processo, elas não só plantam hortaliças, mas também futuros. Porém, garantir que esses espaços permaneçam vivos, é um compromisso que ultrapassa governos; é uma escolha coletiva sobre o tipo de cidade que queremos construir.

A construção comunitária é a chave da perenidade. Quando os espaços são reconhecidos como equipamentos sociais, e não como ocupações temporárias, abre-se margem para que políticas públicas viabilizem o uso da terra, garantam insumos e assegurem a continuidade do trabalho. Entre as soluções defendidas por coletivos e lideranças de hortas comunitárias, destacam-se a segurança na posse com a regularização do uso da terra, garantindo segurança jurídica para hortas já consolidadas; o fortalecimento e ampliação de políticas como o Cadastro da Agricultura Familiar para as hortas urbanas; parcerias com universidades e organizações sociais, para que a agricultura urbana seja parte da educação ambiental e cidadã; e soluções de cuidado mútuo, como mutirões, redes de apoio e bancos comunitários de sementes e saberes.

De fato, a construção e manutenção de uma horta urbana envolve a articulação das mulheres responsáveis com vizinhos e os órgãos públicos para manter vivo seus projetos, enfrentando desde o preconceito racial até a dificuldade de acesso a programas de governo, muitas vezes desenhados sem considerar a realidade periférica.  Além disso, há o trabalho invisível de manutenção, seja, de irrigação, compostagem ou manejo de resíduos que recai majoritariamente sobre elas. Ainda assim, tais espaços florescem como centros de troca, formação política e identidade coletiva de raça, classe e gênero.

Lideranças dos territórios apontam que o problema central não é apenas a ausência de políticas públicas, mas a dificuldade de fazer com que elas cheguem às comunidades mais vulneráveis. A burocracia, a falta de informação e o distanciamento entre o poder público e a periferia criam um abismo que muitas agricultoras não conseguem atravessar sozinhas.

Apesar do cenário adverso, as hortas urbanas têm se tornado polos de mobilização de juventudes. Grupos de estudantes e coletivos culturais passaram a enxergar nesses espaços uma porta de entrada para discussões sobre justiça ambiental, adaptação climática, soberania alimentar e o futuro das cidades. Assim, a juventude periférica tem trazido novas ferramentas, como a comunicação digital, a articulação política, e ação direta, numa energia que fortalece os plantios, mutirões, oficinas e projetos educacionais.

E no olhar dessa continuidade, o Projeto Cabaça em  breve terá uma nova morada, a horta será inaugurada, ainda na zona leste, dando continuidade às práticas de manutenção e produção de saberes das mulheres e do povo de terreiro. As tecnologias de plantio, aprendizagem coletiva e cuidado ancestral resistem frente ao racismo ambiental e produzem inovações socioambientais com a força de uma juventude engajada que inspira a seguir em frente, mesmo diante das crises geradas pela civilização moderno-ocidental.  E por meio destes encontros intergeracionais que surgem alianças fortalecendo as hortas e ampliam sua relevância sociobiocultural.

* Helen Souza é geógrafa, compõe a coordenação da Rede de Agricultoras Periféricas Paulistanas Agroecológicas (RAPPA). Rebeca Viana é bióloga, pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Biociências da USP, ambas filhas do Ilê Asé Omó Nanã. Natália Blanco é comunicadora, integrante da SOF Sempreviva Orgnização Feminista, militante da Marcha Mundial das Mulheres e umbandista.

Editado por: Nathallia Fonseca