Por Maria Fernanda Marcelino, publicado originalmente na Coluna Sempreviva do Brasil de Fato
O manifesto nacional do Dia Internacional de Luta das Mulheres, 8 de março de 2026, foi construído em aliança com mais de 40 organizações nacionais e reuniu mais de 400 assinaturas de organizações nacionais, estaduais, regionais, municipais e locais. O lema da mobilização — “pela vida das mulheres! Contra o imperialismo, por democracia, soberania e pelo fim da escala 6×1” — expressa as principais agendas que as mulheres do Brasil denunciam e do que desejam para nosso país e para o mundo. O manifesto está disponível na íntegra, assim como um documento que foi entregue à ministra das Mulheres, Márcia Lopes, e ao Ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.
Estamos em diálogo, construindo esse manifesto. Em unidade, afirmamos “pela vida das mulheres” porque vivemos um cenário estarrecedor de violência brutal e diversificada. Denunciamos a negação do direito ao aborto, especialmente para meninas violentadas, como no caso do fechamento do serviço de aborto legal no hospital Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo.
Denunciamos também a violência política que atinge mulheres em cargos públicos, como a vereadora Brisa Bracchi, em Natal (RN), alvo de perseguição violenta por parte de uma direita que não aceita uma jovem mulher negra e de esquerda. Falamos ainda da vida de mulheres que, mesmo com salários mais baixos e na precariedade do trabalho informal, sustentam a vida por meio do trabalho doméstico e de cuidados.
Denunciamos o feminicídio e o transfeminicídio que seguem ceifando milhares de vidas. . Se uma única mulher for morta simplesmente por ser mulher, isso é motivo para parar o Brasil. O aumento de casos nos deixa atordoadas, mas trata-se do reflexo de uma estrutura patriarcal que mata mulheres desde os tempos imemoriais.
O que resolve a violência?
Uma única resposta não pode dar conta dessa pergunta. É um problema de segurança pública? Setores de extrema direita reivindicam pena de morte, aumento de pena, prisão perpétua, castração química. É também uma questão de segurança pública, e as medidas previstas na Lei Maria da Penha precisam funcionar com eficácia, mas não são suficientes. É necessário enfrentar as condições estruturais que sustentam essa violência, que não se resolve apenas com medidas isoladas de segurança pública, e que não pode ser motivo para reações punitivistas e violentas.
As mulheres são a base empobrecida da sociedade e as principais responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados — especialmente as mulheres negras. Como dar condições para que uma mulher saia de uma situação de violência se ela não tem para onde levar seus filhos? Se ela não consegue trabalhar com garantia de direitos e condições mínimas? É um problema que exige uma ação coordenada, com mudanças estruturais e multifacetadas.
É urgente que a sociedade não tolere a violência contra as mulheres. Para isso, regular o espaço virtual, com suas redes sociais, plataformas digitais e fake news, e responsabilizar empresas e propagadores de ódio, racismo e misoginia é urgente para interromper essa engrenagem.
É preciso universalizar o acesso à creche e a uma educação libertadora e dar condições para que debates sobre sexualidade, racismo e o machismo sejam não só um direito, mas uma condição para um futuro sem violência. Vivemos há mais de dez anos a interdição do debate sobre gênero na educação básica. A pauta da escola sem partido é uma ameaça recorrente da direita. Conteúdos misóginos nas redes sociais alimentam o ódio contra as mulheres, sendo acessível mesmo entre crianças e adolescentes.
Implementar o Plano Nacional de Cuidados, de forma universal, é fundamental para garantir que crianças, idosos e pessoas doentes sejam cuidados com dignidade, liberando o tempo das mulheres para descanso, estudo, lazer e renda. É preciso também ampliar a formalidade, garantir direitos para as que estão no trabalho informal ou na economia solidária para que a vida das mulheres não seja uma permanente tensão por não saber como será o dia de amanhã. Repensar a segurança pública e o sistema de justiça para haja de fato prevenção e proteção das mulheres e punição aos agressores.
A origem do 8 de março
Há um livro da pesquisadora Isabel Álvarez publicado pela Sempreviva Organização Feminista (SOF) e pela editora Expressão Popular chamado As Origens do Dia Internacional das Mulheres. Ele traz uma história do feminismo que já nasce internacionalista, com mulheres se articulando em muitas partes do mundo e propondo, numa conferência de mulheres comunistas, sob liderança da revolucionária russa Clara Zetkin, um dia internacional das mulheres — que já existia em vários países, mas sem uma data única.
Em homenagem às mulheres russas que lutavam contra a guerra e a fome — e que deram o estopim da Revolução Russa —, estabeleceu-se, naquela conferência de mulheres comunistas e socialistas, o Dia Internacional das Mulheres como conhecemos hoje. Por que a versão da história que conta sobre um incêndio em uma fábrica tem tanta visibilidade? Por que olhar sempre para o sofrimento, e não para a ação política das mulheres como sujeitos que constroem uma luta internacionalista?
As mulheres sempre se organizaram, buscando vencer o machismo, o analfabetismo, as distâncias; sendo capazes de construir alianças nas situações mais extremas, como as guerras, que são a expressão máxima do patriarcado e do capitalismo.
Feminismo anti-imperialista
Neste 8 de março de 2026, reafirmamos também a solidariedade internacional, especialmente com a Palestina. 07 de outubro de 2023 marcou o momento em que a Palestina chamou a atenção do mundo ao responder com a mesma violência que Israel age desde a década de 1940 com apoio norte-americano. Em 03 de janeiro de 2026, os Estados Unidos sequestraram o presidente venezuelano Maduro e sua esposa Cilia Flores. Atualmente, o país busca sufocar Cuba, aprofundando um embargo criminoso que dura mais de 60 anos.
O imperialismo, para nós, não se resume ao Trump. Aqui, temos um correspondente que, felizmente, está preso — Bolsonaro. Na Argentina, está o governo de Milei, além de outros espalhados por aí. Eles vão avançando, mirando suas armas em governos que consideram desalinhados e que, portanto, precisam ser depostos. Defender a Venezuela, a Palestina e Cuba é defender a América Latina e o Brasil.
Reorganizar o trabalho para aumentar a democracia
Se as mulheres não tiverem direitos, não existe democracia. As mulheres têm muito desejo de participação e conseguem participar — são a base do Movimento Sem Teto, do Movimento Sem Terra, de muitos movimentos. São as mulheres que constroem essas organizações.
O que impede as mulheres de militar mais, de estar nesses lugares de comando e de direção? Dentre diversos motivos, está a sobrecarga de trabalho. O patriarcado coloca nas nossas costas todo o peso da reprodução da vida humana. Há uma faixa etária das mulheres que tem muita dificuldade de participação política porque recai sobre elas essa sobrecarga de trabalho.
Essa sobrecarga também impede as mulheres de estar em lugares de comando, nos movimentos, em cargos políticos, em lideranças em geral. Por isso, reafirmamos que a auto-organização das mulheres é a principal estratégia para fortalecer nossa ação coletiva.
É aí que entra o fim da escala 6×1, uma pauta muito antiga do movimento sindical e que ganha força nesse momento. A extrema direita fala em defesa da família, mas as e os trabalhadores jovens não têm direito ao convívio com a família, não têm direito ao descanso.
Quando defendemos o fim da escala 6×1 sem redução de salário, reivindicamos não só uma política universal, mas uma que impacta diretamente as mulheres, porque somos nós que não temos direito ao lazer, ao autocuidado, ao descanso. Essa pauta precisa ser acompanhada de recursos para investir no Plano Nacional de Cuidados, para que deixar de trabalhar formalmente em um dia da semana não signifique mais trabalho doméstico no tempo “livre”.
Se não houver universalização da creche, se não houver lugares para pessoas idosas e acamadas, onde possam viver, ser felizes, se divertir, ter acesso a ginástica e fisioterapia, com condições dignas, essa política de cuidados não avança. Ela é fundamental para libertar as mulheres dessa sobrecarga de trabalho, para que possamos estudar, ter participação política, nos relacionar com a cultura, a cidade e nossas comunidades de outra maneira.
Por fim: sempre olhamos para a realidade das mulheres em todos os lugares. A auto-organização é fundamental. Ou seja: é fundamental se juntar em pequenos e grandes grupos, discutir, enfrentar as questões. Numa universidade, por exemplo, além das questões de assédio, violência e trotes machistas, existem questões como o aborto, a assistência estudantil e a política de permanência, que impactam de forma diferente as mulheres. A auto-organização das mulheres é a estratégia fundamental para que avancemos na destruição do capitalismo patriarcal e racista.
*Maria Fernanda Marcelino integra a equipe da SOF (Sempreviva Organização Feminista) e a executiva nacional da Marcha Mundial das Mulheres. Este texto é uma edição de sua fala no debate “É pela vida das mulheres”, ocorrido em 10 de março de 2026 na PUC-SP.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.


