Nos meses de março e abril de 2025, a SOF Sempreviva Organização Feminista sediou 2 atividades de debates junto com a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e convidadas do Brasil, Canadá e da China, para falar de temas importantes: o abolicionismo penal e revitalização da China rural.
Feminismos e abolicionismo penal: transformar radicalmente a sociedade
No dia 31 de março 2025, a SOF sediou o debate “Luta feminista para enfrentar as violências racistas e patriarcais do Estado”, com Juliana Borges, escritora, livreira e coordenadora de Projetos estratégicos da Iniciativa Negra por uma Nova Politica sobre Drogas, e Vanessa E. Thompson, professora de Estudos Negros e Justiça Social no Departamento de Estudos de Gênero da Queen’s University do Canadá.
O debate aconteceu num contexto em que as mulheres, juventudes negras, pobres e periféricas, população LGBTIA+ vivenciam inúmeras violências no dia a dia. O aumento da exploração do trabalho e dos territórios intensifica ainda mais essas violências. As políticas antidrogas, o encarceramento em massa e a militarização da vida são expressões de políticas racistas e patriarcais. As duas convidadas mostraram como diante desta realidade, as mulheres resistem e constroem lutas. Estas ações produzem, ao mesmo tempo, alternativas e propostas frente ao sistema capitalista, patriarcal e racista, como a justiça restaurativa e transformativa.
Juliana Borges saudou a organização do debate sobre o abolicionismo penal na SOF junto com a Marcha Mundial das Mulheres, salientando a importância pelo campo feminista socialista de transformações radicais, de estar disputando frente a uma versão liberal e punitivista do feminismo, que tem demandado sempre mais soluções criminalizantes para responder às violências de gênero, sem considerar a estrutura racial e patriarcal do estado. Esta é uma tarefa política fundamental, para “demarcar e posicionar que nós somos mulheres feministas e não corroboramos com projetos de lei que querem ampliar a criminalização”, disse a Juliana. Trouxe como exemplo a lei Maria da Penha, cuja demanda original pautava prevenção e não repressão.
Em sua fala, Juliana ainda falou da conexão entre lutas feministas históricas e abolicionismo penal através do enfrentamento às violências patriarcais e racistas, com a compreensão de que as políticas de militarização representam a face mais brutal da violência do Estado, que mata jovens negros e também não trazem segurança para as mulheres vítimas de violências. Uma perspectiva ideológica que “é de transformação de fato radical, de discussão da liberdade, não nesses sentidos deturpados pelo conservadorismo, mas de liberdade mesmo, inclusive que compreenda que liberdade também envolve garantia de direitos”.
Juliana salientou o acúmulo histórico dos feminismos no Brasil em relação às violências e na discussão sobre segurança pública, apresentando, historicamente, soluções alternativas para pensar a questão da militarização da vida e da violência policial. Assim, um ponte importante da proposta da luta feminista abolicionista é a promoção de outros modelos pra lidar com a mediação de conflitos.
Vanessa E. Thompson reforçou os pontos trazidos pela Juliana, levando o debate para um cenário internacional, trazendo desde a luta fundamental das mulheres negras na abolição do sistema escravocrata contra o sistema de plantação, até coletivos de mães contra as violências policiais na Europa.
As 2 convidadas mostraram como o abolicionismo do sistema penal implica mudanças profundas das estruturas sociais, luta na qual os feminismos contribuem e que precisamos fortalecer. Assim, um ponte muito importante da proposta da luta feminista abolicionista é a promoção de outros modelos pra lidar com a mediação de conflitos. Essas alternativas abolicionistas, como a justiça restaurativa, se encontram com o feminismo ao surgir à partir das práticas e vivencias, como a proposta de acolhimento multidisciplinar. A justiça restaurativa, ou seja responsabilizar, reparar e reconciliar, com foco nas pessoas atingidas e também de toda a rede de pessoas ao redor delas, da comunidade como um todo, para que os laços comunitários possam ser curados e reatados.
Para ler a fala integral de Vanessa, acesse a matéria na Portal Capire, clique aqui.
A atividade foi transmitida pelo YouTube da SOF, assista:
As mulheres e a revitalização rural da China
No dia 11 de abril, a SOF Sempreviva Organização Feminista recebeu a professora Lu Xinyu para uma conversa sobre as mulheres e a revitalização rural da China. O convite foi feito em conjunto com a Marcha Mundial das Mulheres (MMM) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e contou com a mediação de Tica Moreno, integrante da Brigada Internacional do MST na China e militante da MMM, assim como da interpretação da Milena de Moura, cineasta e militante da MMM.
Lu Xinyu é professora e diretora da Faculdade de Comunicação da Universidade Normal do Leste da China (ECNU). Seu último livro “Neoliberalismo ou neocoletivismo na China rural” (2024) aborda uma perspectiva histórica da construção do socialismo com características chinesas no campo, e o atual desafio da revitalização rural. Ela é uma das principais impulsionadoras das relações entre o campesinato do Sul Global e a China, promovendo intercâmbios e conferências acadêmicas.
Emancipação das mulheres na China ao longo do século XX
A Professora Lu começou sua intervenção apresentando a emancipação das mulheres na China numa perspectiva histórica, trazendo as conquistas da luta feminista durante o processo revolucionário na China no século XX. Começou falando do Movimento 4 de Maio – movimento anti-imperialista e antifeudal que surge em 1919, processo em que houve um movimento de libertação e de luta das mulheres contra estruturas mais tradicionais e patriarcais, que pautou a opressão de gênero. Essa emergência de movimento de mulheres, aconteceu principalmente nas áreas urbanas do país e estava baseado nas ideias feministas soviéticas, não podendo ser dissociado do movimento pela reforma agrária, do movimento anticolonialista e anti-imperialista.
Ver também na matéria publicada no Portal Capire
Nas próximas décadas, o processo revolucionário que rompeu com o feudalismo trouxe mudanças drásticas na vida das mulheres em termo de acesso à educação, aos direitos políticos e de atuação política. O processo de libertação tinha como umas das suas primeiras etapas garantir que as mulheres fizessem parte de todas as funções importantes para construir a “nova China”, assim como garantir a proteção dos direitos da mulher na Constituição.
A Prof. Lu compartilhou sobre o papel fundamental das políticas públicas e mais especificamente sobre o sucesso do Plano nacional de redução e erradicação da pobreza, acionado pelo governo central chinês à partir de 2012 e que resultou, em 2021, na saída de quase 100.000 milhões de pessoas da extrema pobreza. Mobilizando grandes quantidades de recursos e de funcionários públicos, o plano visou a redução drástica da desigualdade no desenvolvimento entre as regiões Leste e Oeste do país envolvendo anos de investigação detalhada, redistribuição de verbas e medidas de incentivo à integração econômica dessas regiões.
Portanto, o sucesso dessa campanha deixou o desafio de fazer com que as pessoas não voltem à pobreza extrema. Nesse processos, a revitalização rural é uma estratégia central. A Professora Lu e Tica Moreno compartilharam experiencias de revitalização das regiões rurais da China através do fortalecimento das redes de comercialização e de consumo local, tomando como exemplo a criação e o sucesso de um campeonato de futebol camponês.


