Recentemente, fomos informadas de que uma de nossas companheiras da Rede Agroecológica de Mulheres Agricultoras da Barra do Turvo, no Vale do Ribeira, se suicidou. Ela enfrentava uma forte pressão e vivia em tensão dentro de conflitos familiares, principalmente com seu marido. O nome dela é Miriane dos Santos Franco Lourenço. Ela deixou a mãe, os cinco filhos e a gente, suas companheiras. A morte dela foi divulgada em um jornal local como o “segundo suicídio da semana no município”. Assim soubemos que uma jovem trans perdeu a vida também naquela semana.
Ainda não se sabe se foi suicídio ou um crime cometido contra nossa companheira, mas há uma certeza: foi um assassinato. Foi um assassinato devido à violência contra as mulheres. Um assassinato devido ao sistema patriarcal, que impulsiona a misoginia, o ódio contra as mulheres. Esse sistema quer expulsar a gente do território, quer que a gente não exista, e por isso fecha escolas na comunidade, fecha posto de saúde, contamina nossas águas e nosso solo e quer controlar as nossas vidas.
Os conflitos dos territórios estão sobrecarregando a vida das mulheres e as adoecendo justamente porque somos nós a linha de frente desse combate.
A tensão de viver o conflito agrário e a disputa por terras é o medo de perder o lugar que se vive, nossas memórias, o lugar seguro para nós, para os filhos e netos… A depressão é consequência da opressão, é a mistura desse medo com a insegurança, com não ver alternativas.
A tensão e os conflitos que vivemos nesse cotidiano existem em muitos níveis. Eles vão organizando uma escalada de violências. Isso se reflete nas tragédias, mortes, assassinatos e suicídios de mulheres e de jovens.
Estão relacionadas com as violências a nível internacional, como o que estamos vivendo agora. As guerras. O Trump, presidente dos Estados Unidos, entra nos países com a justificativa de que uma ‘ordem’ deve ser organizada. Assim como os colonizadores um dia chegaram aqui e nos disseram que precisávamos ‘nos desenvolver’.
O que está acontecendo a nível de mundo também nos atinge a nível de país. Esse controle atinge diretamente nossos territórios, com a militarização, a delimitação de territórios, a imposição de cercas, o controle de grupos econômicos da mineração e do agronegócio ditando o que deve existir ou nao nesses lugares.
Essas tensões também existem a nível comunitário. Começa a faltar água limpa, aumentam os desmatamentos, tem expulsão de famílias, drone pulverizando agrotóxicos na nossa cabeça. Essa tensão e contradição também aparecem quando algumas igrejas pedem para as mulheres rezarem para seus agressores, dizendo que ele vai melhorar, que ele só precisa encontrar Jesus. Aparecem quando uma fazenda de cana, soja ou laranja se instala do lado da nossa comunidade, oferece serviços para a gente e tira nossa condição de agricultora.
Essas tensões de mundo, de país, de territórios e comunidades refletem no nosso núcleo familiar, na nossa casa, nas relações com nossos companheiros e filhos, como foi o caso de Miriane. O controle do marido dela a colocou em conflito. Muitas pessoas julgarão e dirão “ela nao aguentou”.
Mas a gente responde com outra pergunta: por que precisamos nos sacrificar para garantir a continuidade da vida? Porque os nossos corpos, nossas vidas e nossos territórios precisam sempre estar em disputa? Por que estamos cansadas e adoecidas? Por que estamos perdendo nossas companheiras, nossas filhas, nossa juventude?
Precisamos de igualdade, de uma vida sem violência, das pessoas vivas nos territórios. Precisamos de uma construção coletiva para o Brasil rural que queremos: livre, sem violência e onde as pessoas – nossas companheiras, nossas filhas, nossas mães e avós – possam viver seguras e com dignidade. Se depender de nós, mulheres, esse Brasil é nosso. Não vamos nos calar!
Miriane presente! Miriane presente! Miriane presente!
Sem feminismo não há agroecologia!
Se tem racismo, nao há agroecologia!
Se tem violência, nao há agroecologia!

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As Semprevivas e Mulheres do Vale do Ribeira presentes na 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário (3ª CNDRSS). Este texto foi lido publicamente durante a Conferência.