Por Renata Reis, publicado originalmente no Brasil de Fato*
A luta das mulheres pelo tempo livre não começa nem termina no relógio do trabalho formal. Ela passa, necessariamente, por reorganizar o trabalho doméstico e de cuidados para transformar a vida de quem sustenta a sociedade brasileira.
Certa vez, numa formação política sobre o trabalho doméstico e de cuidados na Zona Leste de São Paulo, fizemos uma atividade juntas. As mulheres construíram uma personagem e descreveram um dia de sua vida. Com o desenho de um relógio, elas apresentaram a personagem com uma rotina parecida com a delas. Ao analisar coletivamente a quantidade de trabalho feito pela personagem, uma das participantes olhou para o desenho e disse: “Esse relógio não vai ficar assim o tempo todo, é só um momento, porque a mulher não aguenta muito tempo assim. Alguma coisa vai acontecer: ou ela para de estudar, ou será demitida porque chegou atrasada muitas vezes, ou vai ter que pedir ajuda para alguém”.
Esse cenário, tão bem ilustrado por elas, mostra quais as saídas existem para a vida das mulheres hoje: a exclusão do mercado de trabalho formal, o cansaço e ausência de saídas coletivas e públicas. Essa situação se conecta com uma outra. Uma companheira foi a um bairro no interior de São Paulo para conversar sobre políticas públicas, como transporte, moradia e infraestrutura. Para começar, perguntou às mulheres o que era mais difícil em suas vidas, e a resposta que mais se repetiu foi a falta de tempo e o peso de estar sempre cuidando de alguém.
Conversar coletivamente sobre como o trabalho está organizado, a falta de tempo e a forma como organizamos nossas vidas para lidar com as dificuldades do dia a dia é fundamental. Nas oficinas de formação política, fazemos o esforço de coletivizar a vida que se apresenta para nós cada vez mais fragmentada. As publicações “Aprender e transformar com a economia feminista” – caderno da multiplicadora e da participante – são materiais recentes que pretendem contribuir para fazer uma boa conversa.
Nesses espaços, podemos repensar que a coisa que vai acontecer na vida de uma mulher para que sua realidade mude pode ser uma luta coletiva. Hoje, ao pensar as disputas sobre como o trabalho é organizado, não podemos deixar de lado o avanço no Congresso Federal da PEC 221/2019, de autoria da Erika Hilton (Psol-SP), pelo fim da escala 6 por 1. Se aprovada, é, sem dúvida, uma conquista que melhora concretamente a vida da classe trabalhadora.
Para melhorar a vida das mulheres trabalhadoras, a redução da jornada de trabalho formal não pode vir sem políticas públicas que reorganizem o trabalho doméstico e de cuidados. Nesse sentido, também celebramos a conquista de 2024: a Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei 15.069/2024, e, desde 2025, o Plano Nacional de Cuidados, conhecido como “Brasil que Cuida”, regulamentado pelo Decreto nº 12.562/2025. Esses instrumentos afirmam, em lei, que todas as pessoas têm direito ao cuidado: o direito de ser cuidada, o direito de cuidar e o direito ao autocuidado. E que esse direito deve ser garantido pelo Estado, não delegado, como sempre foi, às mulheres de forma invisível.
A conexão que precisamos fazer
Em 2025, movimentos sociais organizaram debates sobre o fim da escala 6 por 1 como parte da campanha de um Plebiscito Popular que exigia o fim dessa escala de trabalho e a taxação das grandes fortunas. Movimentos feministas também se somaram, alertando para um dado que raramente aparece nos cálculos: nós já trabalhamos muito além dos seis dias. Trabalhamos sete dias seguidos sem descanso e sem reconhecimento. Isso porque somos frequentemente as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico e de cuidados, que sequer é visto como um trabalho pelo conjunto da sociedade. Para a maioria de nós, mais tempo para a família significa mais horas de trabalho doméstico e de cuidados.
Essa é a conexão que precisa ser feita com firmeza: a luta pelo fim da escala 6 por 1 e a luta pela Política Nacional de Cuidados não são reivindicações separadas. As duas ajudam a provocar a pergunta: quem sustenta a vida no Brasil? São, em sua maioria, as mulheres negras e periféricas que carregam esse peso, com trabalho remunerado e não remunerado. As mulheres rurais, mulheres do campo, das florestas e das águas, também são fundamentais para a sustentação da vida como a conhecemos e para garantir o mundo que queremos. O feminismo revela algo central para pensar o funcionamento da sociedade: fazer a vida acontecer é trabalho, e esse trabalho precisa ser redistribuído, valorizado e assumido como responsabilidade pública.
O que a política diz e o que ainda falta
A Política Nacional de Cuidados estabelece como públicos prioritários:
I – crianças e adolescentes, com atenção especial à primeira infância;
II – pessoas idosas que necessitem de assistência, de apoio ou de auxílio para executar as atividades básicas e instrumentais da vida diária;
III – pessoas com deficiência que necessitem de assistência, de apoio ou de auxílio para executar as atividades básicas e instrumentais da vida diária;
IV – trabalhadoras e trabalhadores remunerados do cuidado; e
V – trabalhadoras e trabalhadores não remunerados do cuidado.
Isso é um avanço significativo: a lei reconhece, pela primeira vez, quem cuida como sujeito de direito, e não apenas como prestador de serviço invisível. Mas, para que essa política ganhe a dimensão necessária para transformar a vida da população, precisamos de uma política orçamentária que coloque isso como prioridade. Isso também se conecta ao plebiscito popular de 2025, quando exigia a taxação das grandes fortunas para reverter em investimento concreto em políticas públicas para o povo.
A territorialização dessa política também é fundamental. Para isso, os municípios e estados precisam aderir ao Plano Nacional de Cuidados e construir seus próprios planos locais. Na prática, para que tudo isso aconteça, é preciso muita pressão e movimentos organizados nos municípios e nos estados. Alguns municípios já avançaram nesse caminho antes mesmo da lei federal, como Belo Horizonte, em Minas Gerais. Mas a maior parte do Brasil ainda não tem sequer um diagnóstico sobre onde e em quais condições o trabalho de cuidados acontece com maior intensidade.
A disputa por orçamento é um desafio permanente das políticas sociais. Nesse caso, a questão orçamentária fica evidente na dificuldade de criar novas políticas e serviços que dividam essa carga de trabalho com as mulheres. Ter experiências pequenas, conhecidas como projetos piloto, são interessantes para realizar iniciativas locais e territoriais que contribuam para a ampliação da política. No entanto, nossas vidas não são projetos-piloto; costuramos nossas vidas junto à construção de um projeto societário, que vê avanços na atualidade, mas deseja muito mais.
Nesse sentido, são um avanço importante os novos espaços de cuidados, como as cuidotecas, assim como as recentes experiências das lavandeiras coletivas. Em espaços de roda de conversa com as mulheres, também aparece uma preocupação: essas iniciativas públicas não podem ter como base o modelo de mercado. Quando falamos de lavandeiras em centros urbanos, as mulheres chamam a atenção para a gestão, os gastos e com quem elas vão deixar os filhos para ir à lavandeira. Essa é uma preocupação que demonstra como os serviços costumam estar distantes de suas casas. Também é uma pista que mostra como o Estado constrói políticas públicas contando com o trabalho das mulheres para garantir deslocamentos e acompanhamentos de pessoas.
Pensar espaços como restaurantes públicos com horários condizentes com a vida nos diversos lugares e a universalização da educação infantil integral é uma aposta que fazemos. Essas propostas disputam não só a forma como se é organizada a sociedade para o trabalho, vão além: queremos comida sem veneno nos restaurantes e uma política educacional de qualidade e pública. Isso também vale para pensar espaços comunitários e coletivos de cuidado com as pessoas idosas, os centro-dia e outros espaços multiuso que podemos construir para realizar o cuidado.
É comum, quando falamos o que defendemos, sentir um distanciamento com um relógio tão carregado de infinitas tarefas que temos hoje. Certa vez, em uma atividade junto ao movimento de moradia, provocamos a seguinte reflexão: falar de política de cuidados parece uma realidade muito longe, um sonho impossível de realizar, mas teve um dia em que ter a casa própria também parecia um sonho inalcançável e que, na luta coletiva, foi possível concretizar. É nesse espírito que conversamos hoje sobre aquilo que ainda não conhecemos, mas queremos viver.
Orçamento não é mágica, é luta
Há uma frase que se tornou uma máxima em nossos processos de elaboração: “Orçamento não é mágica, é luta”, dita por Marilane Teixeira, uma referência no debate econômico sobre as vantagens para a sociedade com a aprovação do fim da escala 6 por 1. Essa frase resume algo que parece óbvio, mas precisa ser dito repetidamente: não existe política pública sem recursos. E os recursos para a Política Nacional de Cuidados não aparecem por geração espontânea; eles disputam espaço com os interesses do mercado financeiro, com o corte de gastos sociais, com a lógica fiscal.
A proposta de taxar as grandes fortunas presente no plebiscito do ano passado encontrou maior resistência de aceitação. Não é coincidência, porque a mesma lógica que mantém o trabalho doméstico invisível é a que mantém a concentração de riqueza intocada. Está no mesmo projeto econômico extrair trabalho das mulheres ao máximo para acumular riqueza sem redistribuir. Disputar o orçamento para a Política Nacional de Cuidados é, portanto, disputar também quem paga a conta da vida no Brasil.
Os riscos que precisamos nomear
Há disputas que precisam ser nomeadas. A primeira é a disputa contra o conservadorismo. Quando dizemos que a Política Nacional de Cuidados precisa ser feminista e antirracista, estamos colocando o dedo numa ferida: a família que a extrema direita diz defender é, na prática, sistematicamente atacada, empobrecida e violentada por esse projeto político. Esse projeto conservador está ancorado numa política econômica capitalista, patriarcal e racista: precisa das mulheres no lugar de eternas exploradas para funcionar. Qualquer política pública que ameace a divisão sexual e racial do trabalho é também atacada ou cooptada por esse campo político. Por isso, o que é uma “política de cuidado” está em disputa hoje.
Disputar contra o conservadorismo é também uma disputa com o mercado. Existe uma tentativa constante de tornar o cuidado uma mercadoria. Essa tentativa, por um lado, oferece às mulheres um pacote da “empreendedora do cuidado”, como cursos, microcrédito, uma ideologia neoliberal que transforma exploração em suposto “empoderamento”. Por outro, promove o que se convencionou chamar de “economia do cuidado”: uma abordagem que, por vezes, se resume ao pagamento monetário para mulheres que realizam trabalho de cuidado no âmbito doméstico. Isso é, na prática, apenas formaliza e legitima o que já existe, sem mudar a estrutura que produziu essa realidade.
Um exemplo recente ilustra bem esse risco: o lançamento da Bolsa Cuidador Familiar no Paraná, que prevê o repasse mensal de meio salário-mínimo a familiares responsáveis por idosos em situação de dependência. Isso significa transferir dinheiro para quem já cuida, sem questionar o porquê de quase sempre ser uma mulher, sem oferecer alternativas coletivas, sem mudar a infraestrutura de cuidados e sem redistribuir o trabalho. Isso é uma forma de reafirmar o papel patriarcal e racista das mulheres como exclusivas cuidadoras e institucionalizar um problema em vez de resolvê-lo. Cuidado não pode ser um selo de qualidade de políticas ou práticas que já existem, precisa mudar o funcionamento da vida das mulheres.
Uma boa briga para se meter
A economia feminista que nos ensinou que o trabalho doméstico e de cuidados é a base sobre a qual toda a economia se sustenta. Agora temos, pela primeira vez, instrumentos legais que reconhecem isso. O desafio é fazer com que esses instrumentos se tornem política real, com financiamento real, nos territórios reais onde as mulheres vivem, cuidam e resistem.
A Política Nacional de Cuidados é, hoje, uma disputa em aberto que devemos intensificar nos debates eleitorais desse ano. Disputa de sentidos, porque revelamos o que é a família brasileira, quem sustenta a vida e o que é trabalho. Disputa de orçamento, porque evidencia como o financiamento de políticas públicas sofreu mudanças profundas após o golpe de 2016 e os governos da extrema direita de Jair Bolsonaro (PL).
De um lado, querem sugar até o último fio de energia para sustentar trilhonários e, de outro, queremos outra forma de organizar o trabalho e os lugares em que construímos as nossas vidas. A desigualdade é tão grande que provoca desânimo e medo, porém cada vitória por direitos e políticas públicas deve ser celebrada como forma de alimentar nossa vontade de virar o jogo. Essa é uma boa briga para se meter. E, como toda boa briga que vale a pena, ela precisa ser coletiva.
*Renata Reis é assistente social, integra a equipe da SOF Sempreviva Organização Feminista e é militante da Marcha Mundial das Mulheres.


