“Aqui Brotam Nossas Ramas” SOF lança publicação reunindo aprendizados e metodologias na atuação junto agricultoras da RAMA no Vale do Ribeira

por | nov 3, 2026 | Notícias | 0 Comentários

Nesta nova publicação, a SOF organiza os aprendizados do projeto Agroecologia e feminismo no Vale do Ribeira, realizado entre julho de 2018 e junho de 2026 em parceria com a organização suíça Espace Femmes International (EFI), que integra a Fédération Genevoise de Cooperátion (FGC). 

“Queremos contar nossos caminhos, encruzilhadas e escolhas metodológicas para evidenciar que a organização coletiva envolve trabalho, pensamento, preparação, ainda que os planos sejam revistos no percurso, como muitas vezes foram”.

A publicação registra como a comercialização agroecológica, feminista e solidária construída pela RAMA inverteu uma lógica de mercado: não são as consumidoras que determinam o que as agricultoras plantam, mas as agricultoras que oferecem, em relação com a terra, os produtos que cultivam. O texto também recupera a defesa dos territórios e modos de vida como eixo que se fortaleceu ao longo da trajetória, diante de ameaças como o programa Vale do Futuro, lançado pelo governo paulista em 2019, que previa privatização de unidades de conservação e ampliação da mineração na região.

O trabalho  da SOF no Vale do Ribeira começou na Barra do Turvo, em 2015, com a política de assistência técnica e extensão rural (ATER) voltada a mulheres e de base agroecológica. O primeiro encontro com as participantes da ATER aconteceu em 8 de março daquele ano, data de lançamento da 4ª Ação Internacional da Marcha Mundial das Mulheres, articulando a atuação local à construção do feminismo popular internacionalista.

A publicação registra que as primeiras referências da equipe no território foram as associações de agricultores familiares dos bairros rurais e as associações quilombolas. A partir delas, o trabalho reconheceu espaços já existentes de organização das mulheres, como grupos ligados à Pastoral da Criança e um grupo de crochê, como base de conhecimento sobre registro e acompanhamento da comercialização coletiva. “Tirar as mulheres de casa”, segundo as agricultoras, é descrito na publicação como desafio permanente, muitas vezes associado a “tirar da tristeza, da depressão”.

A publicação situa a experiência da RAMA em um contexto de disputas nacionais. O golpe de 2016, que retirou Dilma Rousseff da Presidência, resultou na extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrário e do Ministério das Mulheres, além da criminalização de organizações e movimentos que lutam pela terra. Cooperativas e associações da agricultura familiar foram alvo de investigações relacionadas ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), em processos que a publicação descreve como lawfare.

Durante a pandemia da covid-19, que matou pelo menos 700 mil pessoas residentes no Brasil entre 2020 e 2022, a mineração seguiu autorizada no Vale do Ribeira por ser considerada serviço essencial, enquanto postos de saúde nas comunidades foram fechados ou precarizados com a interrupção do programa Mais Médicos. A retomada de políticas como a ATER Mulheres e o Programa de Organização Produtiva das Mulheres Rurais, recomposto em 2023, é apresentada na publicação como resultado direto da continuidade garantida pela parceria com a EFI nesse período de descontinuidades.

A publicação está organizada em quatro campos metodológicos. Em “Fala, corpo, violência”, a SOF descreve como deu sentido, nos cursos de formação feminista, à noção de corpo-território proposta pelas mulheres indígenas de Abya Yala. Em “Reconhecimento do trabalho das mulheres”, o texto trata das práticas agroecológicas e da disputa cotidiana para redistribuir tempos e tarefas entre casa, comunidade e poder público. Em “Organização da RAMA”, são descritos os processos de construção de acordos entre os dez grupos que compõem a rede, distribuídos em oito comunidades quilombolas e de agricultura familiar ao longo do eixo da BR-116.

Os grupos da RAMA assinam a última seção da publicação. “Minha caneta é a enxada”,  como dizem as agricultoras, descreve a precisão de quem maneja a enxada tirando só as plantas que não quer, do mesmo modo como se escreve. “Não queremos opor, queremos a enxada e a caneta”.

“Este material nos convoca a refletir sobre o poder da organização coletiva, a importância de escutar as vozes das mulheres do campo e a necessidade urgente de ações que promovam uma convivência diferente com a natureza, baseada no cuidado, na solidariedade e na autonomia. Todo este processo foi um exemplo de uma colaboração feminista e decolonial, onde as mulheres da RAMA, a SOF e EFI aprenderam mutuamente umas das outras. Ele é uma fonte de inspiração para refletir sobre como nos constituir em sujeitos políticos, com uma perspectiva feminista e antirracista, para defender um mundo mais solidário.”

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