No último dia 8 de junho a SOF Sempreviva Organização Feminista reuniu cerca de 80 militantes e mulheres interessadas no feminismo  para o lançamento virtual de dois cadernos de formação política: Aprender e Transformar com a Economia Feminista — Caderno da Multiplicadora e Caderno da Participante.

As publicações são fruto de um projeto desenvolvido em parceria com a Marcha Mundial das Mulheres e com apoio do Ministério das Mulheres. Elas sistematizam um percurso de formação política ancorado na educação popular feminista, articulando economia feminista, soberania alimentar, defesa dos bens comuns e organização das mulheres em suas lutas territoriais.

Economia feminista como ferramenta viva das mulheres nos territórios

Renata Reis, da SOF, apresentou os cadernos situando a economia feminista não como conceito abstrato, mas como instrumento vivo de leitura e transformação da realidade. “A economia feminista são as lentes pelas quais a gente olha o mundo”. Por isso a economia feminista é construída coletivamente, porque não se restringe as “lentes pelas quais a gente olha o mundo”, como costumávamos dizer. Atualizamos essa metáfora, por entender que perceber como o mundo se organiza requer a combinação de diferentes sentidos.

Os cadernos identificam como eixo central o enfrentamento a divisão sexual e racial do trabalho, mostrando que pautas tratadas como “costumes” pelo conservadorismo como a criminalização do aborto, por exemplo, têm raiz econômica. Uma das contribuições das publicações é demonstrar esse vínculo de forma acessível às mulheres em processo de formação nos territórios.

A política nacional de cuidados também ocupa espaço central nos cadernos. A publicação defende que a política deve ser universal e não apenas gradual ou focalizada, e questiona saídas de mercado que reduzem o cuidado a mercadoria. “Nossas vidas não são um projeto piloto”, afirmou Renata, referindo-se à participação da SOF no Comitê Estratégico do Plano Nacional de Cuidados.

O Caderno da Multiplicadora é voltado às lideranças que organizam processos de formação política. Reúne temas como trabalho e relações sociais de gênero, raça e classe, Estado e políticas públicas para as mulheres e construção de movimento e agenda feminista. O Caderno da Participante, mais compacto, traz os textos a serem lidos coletivamente nas atividades, e inclui ainda um capítulo sobre agroecologia e economia solidária reconhecidas como formas de construir soberania alimentar e alternativas econômicas concretas para as mulheres.

Ambos têm licença livre para reprodução e circulação, e estão disponíveis no site da SOF em versão digital. As publicações contam com ilustrações da artista Biba Barreto, parceira da MMM desde sua origem.

O lançamento reuniu multiplicadoras que realizaram, ao longo do projeto, processos de formação em suas regiões. Os relatos trouxeram experiências sobre como a economia feminista contribuiu e mobilizou as mulheres de diferentes lugares.

Do Amazonas, Neide descreveu o desafio de chegar até mulheres indígenas e ribeirinhas em territórios marcados pela distância e pelas cheias do rio. A partir da formação, ela e a companheira Wanderlain Vasconcelos articularam lideranças locais e encontraram organizações como o Coletivo Mulheres de Fibra da Amazônia, a Associação das Mulheres Indígenas de Parintins e as Mulheres Guerreiras do Atiamã do povo Sateré-Mawé, que já desenvolvem trabalho de economia feminista solidária e defesa territorial. “Vendo o exemplo das outras, a gente consegue ver até onde a gente pode levar”, compartilhou Neide.

Do Maranhão, Ione relatou o enfrentamento de grandes transnacionais que contaminam o território da Zona Rural de São Luís, peixes com mercúrio, ar poluído, comunidades adoecendo. O desafio, aponta, é fazer circular a economia feminista num território onde a cooptação das empresas é intensa. O caderno, para ela, será “o norte” das formações que o núcleo de base da Marcha está preparando na região.

De Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, Magnólia relatou multiplicações realizadas em duas universidades, com mulheres de idades e realidades diferentes. A dinâmica do relógio, ferramenta de visualização da sobrecarga de tempo das mulheres foi a que mais moveu o grupo. “Não é só uma formação, é uma ferramenta de transformação”, afirmou.

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O lançamento foi transmitido na íntegra no YouTube da SOF e pode ser assistido aqui: