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“Finanças feministas: Diagnóstico sobre as necessidades e os desafios do financiamento da economia solidária feminista” foi coordenado por Maria Palomares Arenas Cabral e contou com a colaboração de: Miriam Nobre y Beatriz Schwenck (SOF Sempreviva Organização Feminista, Brasil), Ana Isabel Arenas (Mesa de Economia Feminista Bogotá-MEF), María Atienza de Andrés (REAS – Red de redes de Economía Alternativa y Solidaria, Estado espanhol) e María Eva Raffoul y Sofía Tirachini (La Base, Argentina). O relatório faz parte do projeto “Por finanças éticas e solidárias globais e locais numa perspectiva feminista”, financiado pela Agência Catalã de Cooperação para o Desenvolvimento.
O relatório apresenta um primeiro passo de um caminho coletivo que busca responder a uma pergunta compartilhada por organizações feministas e da economia solidária de diferentes territórios: quais condições, instrumentos e relações tornam possível um financiamento que sustente a vida e fortaleça projetos econômicos transformadores, em vez de reproduzir as desigualdades do sistema financeiro dominante?
Ponto de partida
Inserido no projeto “Por finanças éticas e solidárias, globais e locais em chave feminista”, o diagnóstico parte de uma premissa política clara: em um mercado financeiro global amplamente controlado a partir do Norte, as dinâmicas de financiamento são atravessadas por relações de poder que aprofundam desigualdades Norte–Sul e exclusões de acesso, especialmente para mulheres e dissidências, bem como para coletivos racializados e vulnerabilizados.
Por isso, o relatório situa as finanças feministas como um horizonte em construção e um presente invisibilizado, propondo reconceituar e descolonizar os termos econômico-financeiros, e reivindicando, entre outras questões, o crédito como um direito vinculado à confiança e à sustentabilidade dos projetos e das pessoas.
Objetivos
Com essa abordagem, o diagnóstico se apresenta como um exercício de reconhecimento, visibilização e aprendizagem mútua a partir de experiências de economia solidária feminista na Argentina, no Brasil, na Colômbia, no Estado espanhol e na Catalunha.
O objetivo não é apenas identificar necessidades e obstáculos, mas também fortalecer vínculos entre redes e entidades, compartilhar práticas inspiradoras e abrir possibilidades de replicabilidade, denunciando a responsabilidade que os atores do Norte têm em relação às violações de direitos e às desigualdades estruturais do Sul global.
O processo permitiu constatar que, embora os contextos sejam diversos, existe uma cadeia de responsabilidades e um fio de necessidades compartilhadas que conecta realidades econômicas de mulheres e dissidências em diferentes lugares, especialmente nos processos de empreendedorismo econômico coletivo.
Metodologia
Do ponto de vista metodológico, o relatório se baseia em uma pesquisa qualitativa sustentada por entrevistas realizadas em profundidade com uma amostra seletiva e deliberada, escolhida de acordo com as características das iniciativas e com os objetivos do estudo.
A escala internacional constituiu um dos principais desafios. Para sustentar uma perspectiva situada, foi formada uma equipe de trabalho internacional com uma coordenação e colaboradoras em cada território, responsáveis pela coleta e sistematização das informações e pela análise coletiva.
Esse desenho não apenas facilita a proximidade e a compreensão contextual, como também evidencia que nem sempre se utilizam as mesmas palavras para conceitos que podem ter muito em comum. Por isso, optou-se politicamente por tratar como sinônimos — sem ignorar as nuances — economia solidária e economia popular, assim como finanças éticas e finanças alternativas, populares ou solidárias.
Ao longo do relatório, as organizações entrevistadas aparecem como sujeitos coletivos ativos, com práticas econômicas profundamente vinculadas à vida cotidiana, ao comunitário e a uma identidade feminista plural. Nesse sentido, o diagnóstico destaca a amplitude do espectro de autoidentificação: algumas iniciativas se nomeiam transfeministas, afrofeministas, feministas comunitárias, feministas faveladas ou feministas indígenas; outras não se definem como feministas, embora sejam compostas por pessoas com consciência feminista. Ainda assim, todas compartilham o objetivo de alcançar dignidade política, material e econômica para mulheres e dissidências de gênero. Por isso, a equipe redatora decidiu, a partir de uma leitura política, categorizá-las como organizações feministas.
Acesso ao financiamento
No bloco dedicado ao acesso ao financiamento, o relatório situa como o problema de fundo é o modelo econômico capitalista, que discrimina ou exclui sistematicamente mulheres e iniciativas feministas, perpetuando um infrafinanciamento estrutural.
A maioria das iniciativas entrevistadas relata dificuldades com as instituições financeiras convencionais, pois estas não compreendem as lógicas da economia solidária, da economia feminista ou dos saberes indígenas, nem reconhecem suas organizações como sujeitos econômicos.
O relatório propõe compreender o acesso ao financiamento como uma ferramenta a serviço dos projetos e iniciativas das economias feministas, e não como um mecanismo de reprodução de lógicas perversas de endividamento, rentabilidade ou crescimento ilimitado.
Estrutura de receitas
Como ponto de partida para compreender as necessidades, o diagnóstico apresenta uma radiografia da estrutura de receitas das iniciativas entrevistadas. Em termos agregados, a principal fonte de receitas provém da própria atividade econômica: 43% dos recursos são gerados pela atividade (incluindo 8% provenientes de contratação pública e licitações), seguidos por subsídios e apoios públicos (20%).
Na sequência, aparecem as contribuições de associadas (12%), e com mesma porcentagem as doações privadas e filantropia (8%), os créditos e serviços financeiros solidários (8%) e o financiamento comunitário (8%), ficando a cooperação internacional como fonte minoritária (2%).
Destaca-se também que as iniciativas tendem a diversificar suas fontes, chegando a mais de três vias distintas por organização, com diferentes intensidades. Essa fotografia ajuda a compreender tanto a autonomia econômica buscada por muitas delas quanto a vulnerabilidade de sustentar projetos com margens estreitas, receitas irregulares e alta carga de trabalho reprodutivo e comunitário.
Necessidades financeiras
Em coerência com essa radiografia, o relatório identifica necessidades financeiras que vão além de aumentar e diversificar receitas ou melhorar as condições de trabalho, apontando também para questões relacionadas ao fortalecimento das estruturas e das condições de sustentabilidade.
A necessidade mais recorrente é o fortalecimento das capacidades técnicas e de gestão, mencionada por 82% das organizações. Aparece também a demanda por formação em economia social para as equipes, assim como tempo para uma gestão cuidadosa e atenta da organização — algo essencial nos coletivos feministas.
Entre as necessidades específicas, 41% apontam a importância de acompanhamento e apoio técnico para fortalecer as capacidades financeiras; 22% destacam marketing e novos pontos de venda; e 15% mencionam explicitamente digitalização e melhoria das vendas on-line.
A segunda grande necessidade faz referência ao investimento em espaços, terrenos e equipamentos: 60% das organizações gostariam de contar com um espaço próprio e deixar de pagar aluguel, ressaltando o impacto que os aluguéis têm sobre a sustentabilidade econômica, especialmente nas etapas de consolidação. Também é mencionada a necessidade de simplificar a burocracia tanto para acessar crédito quanto para acessar subsídios.
Obstáculos
O diagnóstico evidencia que os obstáculos ao acesso ao financiamento não se explicam apenas pela falta de receitas ou pelo fato de que as iniciativas sejam frequentemente consideradas “de risco” pelo sistema financeiro capitalista, mas também por conflitos entre os ritmos de vida e trabalho das organizações feministas e os critérios, tempos e linguagens dos atores financeiros.
Emerge das entrevistas a necessidade de adaptar produtos e editais a realidades diversas, valorizar processos e oferecer acompanhamento, em vez de exigir evidências e métricas que não capturam tudo aquilo que essas economias sustentam.
Práticas existentes
O relatório visibiliza práticas já existentes que apontam caminhos para finanças feministas, como aquelas que substituem garantias patrimoniais por relações de confiança, acompanhamento e distribuição coletiva do risco.
Destaca-se, por exemplo, a metodologia da Fundação La Base, na Argentina, que constrói produtos financeiros junto às organizações solicitantes, integra assessoria técnica, análise das condições de trabalho e de mercado, e define em assembleia os valores e esquemas de devolução, operando com fundos rotativos que alimentam novos apoios.
No Estado espanhol, descreve-se o aval solidário da Coop57, que permite o acesso ao crédito a entidades sem patrimônio por meio de uma garantia distribuída entre pessoas do entorno que confiam no projeto. Evita-se, assim, que o risco recaia de forma individualizada e permanente sobre uma única pessoa ou família.
Essas experiências aparecem como sinais de mudança de paradigma: o financiamento é concebido como engrenagem para sustentar projetos e vidas, e não como filtro que premia a acumulação patrimonial.
Necessidades recorrentes
Para responder a necessidades recorrentes, como a compra de espaços, o relatório sugere explorar fórmulas híbridas que envolvam múltiplos instrumentos e atores financeiros, combinando crédito das finanças éticas, aportes de capital social e mecanismos complementares, como títulos participativos, com o objetivo de assumir maiores volumes e construir estruturas mais estáveis.
Aponta-se ainda que esse tipo de colaboração já foi ativado em diferentes países em situações de emergência (pandemia, inundações etc.), por meio de fundos compartilhados entre finanças éticas, fundos de mulheres, cooperação internacional ou financiamento coletivo, convidando à consolidação dessas alianças no longo prazo.
Propostas finais
Nas propostas finais, o relatório sintetiza aprendizados e recomendações para “coletivizar o caminho” e ampliá-lo a atores financeiros do Sul e do Norte global, articulando um marco de ação que combina princípios políticos, mudanças institucionais e ferramentas concretas de financiamento.
Afirma-se, em primeiro lugar, a necessidade de aplicar uma perspectiva situada e feminista que reconheça as condições de partida desiguais do sistema capitalista, colonial e heteropatriarcal. Isso implica desenhar políticas e instrumentos adaptados às necessidades reais dos projetos feministas, aprofundando flexibilidade, adaptabilidade e revisão crítica dos critérios de impacto.
Em segundo lugar, propõe-se incorporar cláusulas sociais e critérios que valorizem a sustentabilidade da vida, reconhecendo o papel da administração pública na criação de ecossistemas favoráveis por meio de alianças público-cooperativas, fundos de garantia e cessão de espaços.
Em terceiro lugar, recomenda-se distribuir o risco de forma coletiva e promover colaborações entre financiadores e entidades intermediárias, evitando que o peso recaia exclusivamente sobre as organizações de base.
Por fim, destaca-se a importância de acessar financiamentos por meio de estruturas compartilhadas, como organizações de segundo grau, polos cooperativos ou redes territoriais e setoriais, que ajudem a enfrentar exigências técnicas e administrativas que frequentemente se tornam barreiras para projetos pequenos ou comunitários.
Conclusões
O diagnóstico conclui que o coletivo, a atenção aos processos e o cuidado não são atributos acessórios, mas práticas cotidianas que atravessam a sustentabilidade das organizações.
Isso implica que, para além de adaptar ferramentas financeiras já existentes, é necessário repensar o financiamento e seus mecanismos a partir da escuta e da perspectiva situada.
A proposta é continuar criando espaços de encontro e aprendizado entre atores financeiros e organizações, fomentar projetos articulados em rede e replicar boas práticas. O convite final é seguir “avançando em espiral”, compartilhando perguntas e respostas até que as finanças feministas possam, efetivamente, transformar o sistema econômico dominante.


